21/03/2017

A ÚLTIMA HORA E A VIDA ETERNA EM JOÃO 17, 1-5
Autor: Diác.Cleonilson Oliveira Alves

Uma sucinta análise de caráter hermenêutico-exegético faz-se evidentemente necessária sobre alguns elementos da perícope Jo 17, 1-5. Isso se deve a duas razões; primeiro porque se trata da última oração de Jesus; e segundo, porque dispõe sobre a singularidade do termo “hora” (hōra) e da “vida Eterna” (Zōēn aiōnion) na perícope.  O termo “hora” (hōra) ocorre pelo menos 22 vezes no Evangelho joanino; a expressão "vida Eterna" (Zōēn aiōnion) ocorre 17 vezes, mas ambas aparecem de forma singular e definitiva no “adeus” de Jesus na passagem mencionada.    

O v.1 da perícope descreve a ação de Jesus no momento da oração: “e erguendo os olhos ao céu” (...kai eparas tous ophthalmous...). Esta atitude contrasta com seu ato de cair com o rosto por terra no Getsêmani (cf. Mt 26,39). Existem estudiosos que pensam na possibilidade dessas palavras terem sido proferidas no Getsêmani; outros estudiosos fazem objeção, argumentando que em extrema agonia e em tão breve tempo Jesus não utilizaria palavras de sentidos tão diversos; um terceiro grupo de interpretes assevera que a personalidade humana é capaz de expressões emocionais divergentes em um curto período de tempo – da agonia para o êxtase. Ambos os gestos ocorrem antes da prisão de Jesus (Mt 26,47-56; Jo 18, 1-10), ou seja, na sua última hora.

A hora (hÄ“ hōra) em Jo 2,4 é a mesma hora de Jo 12,23: a hora (hÄ“ hōra) em que o Filho retorna para sentar à direita do Pai. Embora estas duas menções versem sobre o mesmo fato, elas concorrem para um único momento – a hora definitiva de Jesus, a qual apenas culmina em Jo 17,1: “chegou a hora” (...elÄ“lythen hÄ“ hōra). O verbo “chegar” (elÄ“lythen) está no tempo Perfeito do modo Indicativo na voz Ativa, isso na língua grega – expressando dessa forma um estado atual, não obstante resultado de um acontecimento do passado. O evangelista, ao longo do Evangelho, relata outros momentos críticos da caminhada de Jesus – esta é o último. Este é o “adeus” de Jesus, consequência final de sua missão. A hora é a da glória; Jesus a comunica aos discípulos e por fim, vai ao Pai novamente (cf. Jo 12,23; Jo 12,28; Jo 13,31-32). A glorificação é a exaltação pela morte e pela ressurreição: ele orou na humanidade para a exaltação da humanidade, em virtude de sua divindade com o Pai. (cf. Jo 17,5). 

No v.2 lê-se:...ele dê a vida eterna (...dōsÄ“ autois  Zōēn aiōnion.). Neste versículo, segundo se constata, a “vida eterna” é um dom que Deus nos concede; é a finalidade da glória que Jesus solicita ao Pai em sua última “hora”. Essa expressão enfatizada por Jesus desde o terceiro capítulo até o v.3 do capítulo 17 do Evangelho joanino (17,3) segue uma ordem comum em relação ao uso predicativo do adjetivo quando se lê no original grego (cf. 3 15, 16, 36; 4 14,36; 5 24,39; 6 27,40, 47, 54 ,68; 10 28; 12 25,50; 17, 2,3). Porém, esta sequência é modificada de uma vez por todas, definitivamente no v.3 de João 17. 

A conjunção ou locução conjuntiva “a fim de que” (hina) presente em Jo 3,15 seguida pelo verbo “crer” (pistéio) mostra que o ato de crer é uma finalidade indispensável: é a condição sine qua non para possuir a “vida eterna”. No v.1 da perícope a conjunção apresenta conotação semelhante, vindo a ser utilizada no versículo seguinte, este último em continuidade com o primeiro. Contudo, o diálogo ganha um sentido diferente; não é mais uma verdade autônoma declarada por Jesus para quem quer alcançar a “vida eterna”. Neste trecho seguinte, refere-se ao diálogo do Filho com o Pai, em cujo teor se encontra a missão do Filho: fazer a vontade do Pai. Não aborda o futuro, mas sim o presente em nunc stans glorificado pelo seu percurso de obediência. 

No v.3: “...mas esta é a vida eterna” (raute  de  estin  hÄ“ aiōnios Zōē,). Neste versículo tudo é modificado. Por isso, se está de acordo com Dufour ao afirmar que a expressão em destaque é uma retomada do versículo anterior. Contudo, neste versículo rompe-se com a ordem comumente usual nos versículos anteriores: substantivo (Zōēn) mais adjetivo (aiōnion), neste versículo o adjetivo (aiōnion) assume caráter propriamente atributivo – ficando localizado entre o artigo e o substantivo (hÄ“ aiōnios Zōē). Numa tradução ao pé da letra temos uma eterna vida ao invés de uma vida eterna. Esta “vida eterna” não está mais vinculada ao verbo crer (pistéio), porém ao verbo conhecer (ginōskō): pois esta é a eterna vida, que todos te conheçam (ginōskōsin) o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste Jesus Cristo.
 Este versículo possui peculiaridades expressivas de tal forma que a luz da literatura estudada escapou aos olhos dos comentadores a inversão dos vocábulos e o significado da expressão no todo. Em Jo 1,18 fica explícito que a missão de Cristo era revelar o Pai: “Ninguém jamais viu a Deus: o Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o deu a conhecer”. 
Esta é a obra concluída (v.4), é a missão cumprida – porque Jesus revelou Deus aos homens por meio Dele (Jo 1,18). Jesus sai da história do homem e entra na glória de Deus; deixa a existência terrena para a existência na eternidade de Deus, a sua condição antes de sua vida terrena (histórica). 

Contudo, aos que o conheceram e creram; ele garante: “Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós”. (Jo 14,18). Este verbo “voltar” (erchomai) não significa retorno, mas permanência, não no sentido temporal, mas espiritual. Isto é (verbo no tempo Presente do modo Indicativo na voz Ativa) a Eterna vida no “já” em vista do ainda “não”. Enfim, para o homem de fé, a vida eterna não é uma realidade distante, no além, mas aqui e agora; a eternidade já é presente no tempo, pois se vive nesta hora uma eterna vida, quando se vive a alegria do Evangelho. 

Referências

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

BLANK, Josef. O evangelho segundo João 2ª parte. Traduzido por Miguel Gomes mourão de Castro. Petrópolis: Vozes, 1988. 

BROWN, Raymond Edward. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulus, 1999.

CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Cultura, 1983. V. II. 

DODD, Charles Harold. A interpretação do quarto Evangelho. São Paulo: Paulinas.1977

DUJOUR, Xavier Léon. Leitura do Evangelho segundo João III (cap.13-17). São Paulo: Edições Loyola. 1996. 

______. Vocabulário de teologia bíblica. Petrópolis: Vozes, 2013.

JERÔNIMO. Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Paulus, 2011. 

NESTLE-ALAND. Novum Testamentum: Evangelium Secudum Ioannem. Disponível em:<http://www.documentacatholicaomnia.eu/04z/z_sinedata__Ioannes_Euangelista__Novum_Testamentum._Evangelium_Secudum_Ioannem__GR.doc.html. >Acesso em 16/06/2016.    
RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a ressurreição; tradução Bruno Bastos Lins. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011.

REGA, Lourenço Stelio et ali. Noções do grego Bíblico: gramatica fundamental. São Paulo: Nova Vida. 2004.