A Campanha da Fraternidade 2026 traz como tema “Fraternidade e Moradia”, convidando toda a Igreja no Brasil a refletir, à luz da Boa Nova do Reino de Deus e em espírito de conversão quaresmal, sobre a moradia digna como prioridade e direito fundamental, inseparável dos demais bens e serviços essenciais à vida humana. Com o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a Campanha propõe um olhar cristão, social e transformador sobre um dos maiores desafios da sociedade brasileira contemporânea.
De acordo com dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 16,3 milhões de pessoas, o equivalente a 8,1% da população brasileira, vivem atualmente em favelas e comunidades urbanas. Em comparação com o Censo de 2010, houve um crescimento de quase cinco milhões de pessoas nessas condições, além do aumento expressivo no número desses territórios, que praticamente dobraram no período.
Diante dessa realidade, a Campanha da Fraternidade reafirma seu compromisso histórico de trazer à centralidade do debate temas urgentes que, muitas vezes, são naturalizados ou invisibilizados. Para o Padre Jean Poul, a moradia não pode ser tratada como um acessório da vida humana, mas como um direito essencial.
“Nós convivemos com a população em situação de rua, com favelas, cortiços e assentamentos, mas muitas vezes achamos que está tudo bem. A moradia é um direito humano fundamental, garantido pelos direitos humanos da ONU, pela Constituição Federal e também reconhecido como um direito divino. Ela é uma exigência para a realização integral do ser humano, inclusive em sua dimensão religiosa”, afirma.
Objetivos da Campanha da Fraternidade 2026
O texto-base da CF 2026, atualmente em fase de finalização, apresentará seis objetivos específicos, que orientam a reflexão, a ação pastoral e o compromisso social da Igreja:
Analisar a realidade da moradia precária, muitas vezes admitida como normal, que segrega e culpabiliza os pobres no Brasil.
Identificar as omissões do poder público e da sociedade civil, bem como iniciativas pastorais, governamentais e populares que promovem o direito à moradia.
Conscientizar, à luz da Palavra de Deus e do Ensino Social da Igreja, sobre a necessidade sagrada de teto, terra e trabalho para todos.
Corrigir a compreensão da moradia como mercadoria, objeto de especulação ou mérito individual.
Fortalecer a presença eclesial e o compromisso sociotransformador junto aos mais pobres, em diálogo com movimentos e organizações populares.
Empenhar-se na efetivação de leis e políticas públicas de moradia em todas as esferas sociais e políticas.
A realidade da moradia no Piauí e na Diocese de Bom Jesus do Gurguéia
O tema da Campanha da Fraternidade 2026 encontra forte ressonância no estado do Piauí, que enfrenta um sério desafio habitacional. O estado figura entre os dez com maior déficit de moradia do Brasil, ocupando a segunda posição no Nordeste. Estima-se que cerca de 124 mil famílias piauienses não possuam casa própria ou vivam em condições precárias, de favor ou em situação de vulnerabilidade habitacional.
O déficit habitacional no Piauí atingiu 12,1% dos domicílios em 2022, com maior concentração nas áreas urbanas, embora a zona rural também apresente números expressivos. Muitas famílias residem em imóveis inadequados, improvisados ou sem as condições mínimas de dignidade, buscando alternativas para garantir o direito à moradia própria.
Como forma de enfrentamento dessa realidade, o Governo do Estado tem desenvolvido iniciativas como o programa “Morar Bem Piauí”, que concede subsídios de até R$ 10.000 para auxiliar famílias de baixa renda na aquisição da casa própria. Ainda assim, os desafios permanecem grandes, exigindo esforços conjuntos do poder público, da sociedade civil e das organizações sociais e religiosas.
Nas cidades que compõem a Diocese de Bom Jesus do Gurguéia, a situação revela-se ainda mais sensível, sobretudo nas periferias urbanas e nas comunidades rurais. É comum a presença de casas de taipa, construções frágeis, muitas vezes sem reboco, sem piso adequado e sem acesso ao mínimo de saneamento básico, como água tratada, esgotamento sanitário e coleta regular de resíduos.
Essa realidade compromete diretamente a dignidade das famílias, afetando a saúde, a segurança, a educação das crianças e o pleno desenvolvimento humano. A ausência de infraestrutura básica expõe moradores a doenças, insegurança ambiental e exclusão social, agravando desigualdades históricas presentes na região.